A vida e a morte não são compreensíveis

Sonho CCXLVII


Tinha de enterrar um homem que me era desconhecido.
 
Não sei porque me fora incumbida essa missão, mas tinha de a cumprir urgentemente, sem demora.

Logo nesse preciso momento é que surgira a oportunidade de reencontrar o amor da minha vida, mas tinha de resolver este assunto primeiro.

Quem é que pode deixar um morto por enterrar?
 
O enterro dos mortos era um serviço público.
 
Liguei para uma casa mortuária, marquei o enterro, mas não consegui transporte, pois esse era um serviço privado.
 
Sendo assim, meti o caixão dentro do carro e dirigi-me para o cemitério, para acertar os pormenores.
 
Não sei como consegui fazer tudo isto sozinho, quando em geral são necessários quatro homens para transportar um caixão.
 
Cheguei ao guichet e, apresentando o meu caso, a senhora disse-me, com uma expressão escandalizada:
 
- O quê? Você trouxe o morto? Você não podia fazer nada disso!
 
Timidamente, respondi:
 
- É que o enterro já está marcado...
 
- Ah!... Nada disso!... - bramia a nobre senhora. - Você não sabe que o primeiro enterro é sempre falso?... É só o caixão que vem!... Não vem o morto lá dentro!...
 
- Mas como é que eu podia saber uma coisa dessas?
 
- Meu Deus!... Mas como é que você não sabe?... Não temos terra para tantos mortos!... Eles ficam em lista de espera, dentro dos frigoríficos, ou onde for possível que fiquem... O enterro é só um serviço que prestamos às famílias!

Desesperado, com o morto dentro do carro, eu sentava-me num banco a chorar, com esperança que alguém se compadecesse de mim e me ajudasse a resolver aquele imbróglio em que me metera.

Naquele contexto, porém, todos respeitavam a minha dor. Ninguém me perguntava porque chorava.

Estava preocupado, pois tinha deixado o carro aberto, mas quem iria roubar um caixão e um morto?

Certamente ninguém.

De resto, iria falhar o encontro com o amor da minha vida, queria lá saber do que se seguia.

Em desespero de causa, liguei para a minha mãe e perguntei:

- Então os primeiros enterros são sempre falsos? Os segundos é que são a sério?

- Pois claro. - exclamou ela do outro lado - Em que alhada é que te foste meter? Não te lembras que foi assim que enterrámos o teu avô e a tua avó? Que foi assim que enterrámos toda a gente?

- Mas então o caixão ia vazio? Não ia ninguém lá dentro?

- Pois claro que não. Então não sabes que não há terra para tantos mortos?

- E porque é que não me chamaram para o segundo enterro?

- Achámos-te demasiado abatido no primeiro, não íamos chamar-te para o segundo.

Eu pensava afinal na vacuidade de toda a minha meditação enquanto seguíamos em cortejo atrás do caixão que, sabia agora, estava vazio, enquanto seguíamos a pé cemitério fora e enquanto lançavam as primeiras pazadas de terra.

Pensava naquele som da terra a cair com um baque seco e vazio, tão imensamente vazio, pensava no ritmo das pás no meio do silêncio e de alguns soluços mal contidos, como os acordes finais de uma peça sem sentido, em que todo o combate, fosse com uma doença cega, fosse com a vida no seu frágil dia-a-dia, sempre à beira do abismo, fosse com o mundo que é tantas vezes de uma crueldade abusiva e de uma predação impensável, em que todo o combate parece acabar demasiado de repente e sem qualquer aviso prévio, e afinal todo esse equilíbrio precário de nos pormos de pé e nos cuidarmos, de inventarmos para as nossas vidas, ou um sentido, ou um desejo, ou uma missão, todo esse combate para extrair do dia um grão de liberdade, uma oração, uma linha de fuga, tudo isso se interrompia num único segundo, sem qualquer intervenção da nossa vontade.

«Se os caixões andam vazios, por onde andam os mortos?»

Era no que pensava, naquele momento.

Levantei-me por causa do carro, que tinha deixado aberto, e deparei-me com o carro vazio.

Alguém levara o meu caixão por engano.

Mas não podia ser!...

Risquei o carro todo para tirá-lo daquele lugar e poder verificar que aquilo era mesmo verdade.

Queria lá saber da pintura do carro!...

Mas, nesse momento, verificada a ausência do caixão e do morto, já não consegui permanecer de pé.

Sentei-me na berma da estrada, avassalado.

Nem enterro, nem caixão, nem morto!

O desdobramento, isto é, a separação de si para si que opera o mecanismo da nossa consciência, quando se debruça sobre si, não constitui apenas uma tragédia.

Tinha a certeza de que, se continuasse a chorar, a cabeça me estalaria em mil bocados.

O desdobramento também pode ser uma estratégia de sobrevivência, como a do faquir que se desprende da dor ao desdobrar-se nela, ao contemplá-la como a uma estrela distante, e a nós também é útil quando nos ardem tanto as plantas dos pés que já não podemos erguer-nos sobre a terra que pisamos.

Tentava lembrar-me do título de um belo filme de Hitchcock que era sobre as aventuras e desventuras com um morto num caixão - seria The Trouble with Harry?

Por outro lado, se era certo que eu nunca seria o amor do amor da minha vida, também era certo que esta ideia, ou ideal, sobre «o amor da nossa vida», bem podia ser enquadrada dentro daquelas que Kant define como fontes de patologia da nossa capacidade especulativa.

«Que belo enredo!...» - pensava eu, sentado no passeio.

Dava talvez para escrever um belo conto à maneira de Kafka, com um leve travo a Hitchcock.

O resto iria resolver-se por si.

Não é verdade que, no dia em que deixamos de restaurar as casas, as plantas e os ramos começam, mais tarde ou mais cedo, a brotar das paredes?

É que, pontualmente, estar nas nossas vidas como espectadores ou autores de enredos não deixa de ser uma bela estratégia, porventura tortuosa, mas eficaz, para suportar a realidade mais alucinante.