Sobre a necessidade de inventar uma nova relação com a consciência

Sonho CCLIII


A Maria do Mar era empregada doméstica numa grande casa onde havia muitas coisas para fazer.
 
Todos os dias de manhã a Maria do Mar se levantava para trabalhar e ganhar o seu sustento, durante muitas horas seguidas.
 
Quando chegava, cruzava-se com a patroa que também saia para o seu trabalho.
 
A patroa não era simpática. Vestia-se de um modo extremamente elegante e conservador, com peças caras e bem cortadas, quase sempre assinadas.
 
Pelo contrário, a Maria do Mar levava sempre um pormenor de indumentária extravagante.
 
A patroa detinha o olhar com uma expressão de tal modo crítica e analítica nesses pormenores da indumentária da Maria do Mar, que era impossível não depreender o que estaria a pensar.
 
Ou era um lenço, ou um chapéu, ou uns sapatos, ou um vestido de veludo.
 
Era um modo de a Maria do Mar tentar não pertencer a lado nenhum.
 
Dentro de casa, a Maria do Mar tinha por hábito fazer planos para se embebedar.
 
Desta vez, colocara mais de um litro de gin puro dentro de um jarro de água, para disfarçar, mas, ao invés do que tinha previsto, a casa estava cheia de gente.
 
Era a avó, as crianças, os amigos das crianças, o cão e o gato e com certeza ainda mais gente.
 
Todos estavam em casa, andando de um lado para o outro.
 
A avó não percebia porque é que a Maria do Mar limpava as casas de banho com um jarro de água poisado no chão.
 
A Maria do Mar estava numa grande angústia, que não confessava a ninguém.
 
À vinda cruzara-se com um animal abandonado, magro e com o pelo todo sujo, que passara de fugida.
 
Esse animal deixara-lhe dentro do peito tudo aquilo que mais a aterrorizava.
 
A morte, a invalidez, a penúria, a dor, o absurdo, a ausência de Deus e a carne.
 
A Maria do Mar não sabia como viver.
 
Como é que se pode viver com a lembrança de tudo o que se passa no mundo, com o sofrimento dos animais e dos homens, mesmo quando nós não sofremos?

Tudo isso era demasiado para o que conseguia suportar.

Era uma sensação avassaladora, como se fosse submergida por uma avalanche.

Quase não conseguia respirar.
 
Tinha de limpar toda a casa muito bem, muitíssimo bem.
 
Isso deixá-la-ia, pelo menos, aliviada.
 
Tinha de encher o corpo todo de gin, para conseguir respirar um pouco.
 
Pois, sem ser o álcool e o alívio do dever cumprido, que outros modos existiriam, inéditos, para se relacionar com a consciência? 

Nos sonhos a actividade do cálculo não parece tão profícua como na vigília

Sonho CCLII


A Maria do Mar guiava em alta velocidade enquanto falava com a mãe no auricular.
 
A autoestrada, porém, ao invés de continuar após uma determinada curva, como seria suposto, interrompia-se num abismo.
 
Era um abismo com milhares de metros de altura.

O seu carro voava sobre um imenso vale, em queda livre.
 
A Maria do Mar considerou que não tinha tempo para grandes explicações, mesmo estando ao telefone e ainda com os segundos do tempo restante de uma queda tão longa.
 
Calculou que, de uma queda de tantos milhares de metros, seria impossível sair viva, e disse:
 
- Mãe, morri. Mas fica sabendo que te amo.
 
Seguiu-se um intervalo de total inconsciência, pois a Maria do Mar não sentiu o carro a bater, nem qualquer espécie de dor, mas, passado algum tempo, deu por si, incólume, a andar de um lado para o outro num sítio que nada tinha a ver com o abismo onde caíra.

A Maria do Mar encontrou o seu irmão que chorava, dizendo:

- Nunca imaginei que fosse tão difícil ser honesto consigo mesmo.
 
- Ah!... - disse-lhe a mãe, quando deu de caras consigo. - Eu sabia que estavas a exagerar!...

- É uma prova para todos os minutos das nossas vidas. - disse a Maria do Mar ao seu irmão.
 
A Maria do Mar ficou em silêncio, meditando na dificuldade do esforço de ser exacto consigo mesmo, por um lado, e, por outro, no dever e na necessidade de dizer a verdade quando certas explicações não merecem nem podem ser dadas.