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Sobre a culpa que se adquire com a intenção, mesmo sem as vantagens do delito

Sonho CCXXV


A Françoise M. descia com uma amiga pela rampa de um estacionamento subterrâneo até encontrar um grupo de chineses sentados em lonas, que estavam de guarda aos seus haveres.
 
Ali se tinha reunido muita gente, mas não havia automóveis.
 
Porque estariam todos ali?
 
Seria por causa das bombas?
 
Estariam em guerra?
 
Havia pessoas sentadas em cadeiras brancas de plástico, observando quem passava.
 
Alguns tinham trazido cobertores, outros tinham trazido caixotes de fruta e outros ainda tinham trazido móveis de casa.
 
Havia uma estante muito feia com uma jarra terrível e uma flor de plástico.
 
Meu Deus!... As coisas de que as pessoas precisam!...
 
Também havia um daqueles bares em forma de armário, cheio de garrafas.
 
A amiga de Françoise M. pegou num copo e serviu-se de uma garrafa de gin.
 
A Françoise pensou em fazer o mesmo, mas depois reflectiu.
 
Para a sua amiga era apenas um copo de gin, mas para si seria a ruína.
 
Mesmo estando em guerra e debaixo de um bombardeamento, não lhe parecia uma boa opção.
 
Disse:
 
- Adeus.
 
E subiu à superfície.
 
Lá em cima a Françoise encontrou por acaso a Narciso E. F. que fazia anos.
 
Trazia um bolo, mas, infelizmente, não havia nada com que pudessem comê-lo.
 
Nem pratos, nem guardanapos.
 
Era noite avançada, quase de madrugada, e a Françoise determinou-se a assaltar o Gambrinus para ir buscar copos e guardanapos.
 
Era inofensivo roubar ali três guardanapos de papel e uns pratos, eles tinham demasiadas coisas.
 
A porta estava apenas encostada e a Françoise entrou facilmente, mas esqueceu-se que era um ladrão e acendeu todas as luzes, para poder encontrar os pratos e os guardanapos.
 
De repente, ficou muito aflita.
 
O que estava a fazer?
 
Por que raio tinha acendido aquelas luzes todas?
 
Agora qualquer um podia vê-la, ainda por cima com aquele casaco branco e felpudo.
 
Sentiu passos a aproximarem-se.
 
Deixou cair os guardanapos no chão que estava molhado e os guardanapos desfizeram-se quase imediatamente, de modo que não foi possível apanhá-los.
 
Também não havia por ali pratos de plástico e, como a Françoise não queria roubar nada que pudesse fazer falta no restaurante, saiu de mãos a abanar.
 
O grupo de homens que vinha abrir o restaurante cruzou-se com ela, enquanto a Françoise corria o mais que podia.
 
- Já que me incriminei, não podia ao menos ter colhido as vantagens do delito?